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sábado, 22 de dezembro de 2012

BREVE HISTÓRIA DE JACARAÚ - UM POVOADO CABOCLO

Caríssimos(as), segue um breve texto de minha autoria sobre a comunidade de Jacaraú - distrito rural de São Gonçalo do Amarante / RN. Para elaborar esse texto, eu e a professora Eliene (Matemática), da Escola Municipal Joaquim Victor de Holanda (localizada em Uruaçu - também zona rural do citado município) realizamos uma visita a Jacaraú, com alunos da comunidade e de comunidades vizinhas - entrevistando moradores do lugar. O texto foi apresentado na última feira de ciências da escola Joaquim Victor.

"A história do povoado de Jacaraú é quase toda de base oral. Não encontramos, durante nossa pesquisa, qualquer documento oficial escrito sobre a história da citada comunidade rural são gonçalense.

Jacaraú é uma comunidade pequena, localizada na zona rural de São Gonçalo do Amarante, constituída principalmente por agricultores. Localiza-se proximo a outra vila chamada Coqueiros. É uma das comunidades mais antigas da região: os primeiros moradores ocuparam o lugar em meados do século XVII, antes de São Gonçalo do Amarante ser fundada e no mesmo século em que ocorreu o massacre de católicos em Cunhaú e Uruaçu, dirigido pelo alemão Jacó Rabi. Esses primeiros moradores, segundo contam as veneráveis senhoras da comunidade, eram índios (possivelmente indígenas Potiguara do tronco Tupi).


 
O nome "Jacaraú" é termo de origem Tupi: "Iakareý", significando "Rio dos Jacarés". Dos antigos índios que habitaram a região, entretanto, restam apenas um poço - chamado "Poço dos Caboclos" - localizado no lugar em que viveram os nativos, terras hoje pertencentes a família Veríssimo; e um conto sobre a origem da comunidade. Não há data exata para tal origem. Sobreviveu somente a memória do acontecido.

Há muito tempo atrás, havia próximo da comunidade uma grande e bonita lagoa. Um velho, talvez um índio da região, decidiu chamá-la "Jacaraú". A partir daquele momento, quando alguém dizia: "Vamos tomar um banho!" e alguém perguntava onde, a resposta era: "Na lagoa de Jacaraú". E assim o topônimo "pegou".



Dona Maria Cícera Duarte, de 79 anos, vive em Jacaraú desde 1969. Conta que na época de sua chegada, Jacaraú era rua de um só proprietário: desde a fazenda do senhor Veríssimo, Jacaraú era propriedade da latifundiária "Francisca Lôra". Dona Maria Cícera teve oportunidade de conhecer alguns dos mais antigos moradores da região. Eles a contaram que bem antes de sua chegada, em Jacaraú havia uma grande feira.

Mas quando a então jovem Maria Cícera chegava ao povoado, o lugar parecia ser bem mais animado, afinal, nas décadas de 1950 e 1960, frequentemente havia jogo de futebol, festas diversas com apresentações culturais (como Pastoril, Fandango, Marinheiro de Água Doce, Barca, dentre outras); cantadores e emboladores de coco vinham de Natal para se apresentar na comunidade, além de grandes festas juninas e carnavalescas e apresentações dramáticas. Vez em quando vinha também um circo e na capela, "que tinha balancinho e tudo", eram celebradas missas e realizadas festas de caráter cristão.

Em 1972 foi inaugurada em Jacaraú a Escola Municipal Maria Penum - em homenagem a uma professora nascida no povoado. De lá também veio o senador Luís de Barros e outros personagens ilustres.

Tudo isso faz parte de um passado hoje tristemente perdido. Após a morte de Chica Lôra, as atividades culturais cessaram na comunidade. Jacaraú deixou de ser conhecida como "A Terra das Brincadeiras". Com o tempo a capela ruiu para sempre e a igreja Assembléia de Deus, construída a menos de dois anos, ainda não conquistou a simpatia de toda a comunidade.



Para completar, em 1982 houve uma enchente que assolou parte da comunidade. A água derrubou diversas casas de taipa e alguns moradores foram embora auxiliados por uma lancha. Porém, os poucos habitantes que resistiram vêm aos poucos reorganizando suas vidas. Com apoio da prefeitura, novas casas foram construídas e a população segue seu destino.

Dos primeiros habitantes da região, os indígenas, parecem ser poucas as lembranças - mas muitos elementos ancestrais ainda sobrevivem na comunidade. O biotipo de diversos moradores (estatura de pequena a mediana, pele morena, olhos puxados, dentes pequenos) indica a raiz Potiguara; o principal modo de subsistência continua sendo o usufruto da terra; e os aspectos culturais subjetivos de origem indígena também são muito marcantes: um mito que parece ser forte na comunidade, por exemplo, é a Florzinha da Mata - espírito protetor dos animais e da floresta que assobia para indicar sua presença e quando aparece pede fumo. Os cronistas dos séculos XVI e XVII, que conviveram com nossos antigos indígenas, tomaram notas dessas entidades espirituais às quais os velhos pajés ofereciam fumo e para os quais manifestavam-se assobiando.

Há coisas em nossas vidas que, felizmente, o peso da civilização não conseguiu destruir."
 
Grande abraço! Feliz Natal para todos e todas!