Total de visualizações de página

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

TABACO, AMESCLA E ALFAZEMA, EM MEU CACHIMBO DE JUREMA

Interessante como o tempo tem passado rápido em sua inexistência.

No segundo semestre de 2005 iniciava minhas pesquisas sobre Catimbó-Jurema - movido mais por uma curiosidade medrosa e preconceituosa do que por interesse real em conhecer o Santo Magistério dos caboclos do Nordeste brasileiro.

Comecei por Canguaretama, como os leitores deste blog já devem ter percebido. Dez anos depois, continuo com as pesquisas sobre uma das Tradições mais antigas da América Latina - feliz da vida, mergulhado na Jurema Sagrada.

Hoje, eu e meu filho passamos a tarde espanando e organizando nossa biblioteca. Encontramos um velho caderno que quase foi para o lixo. Quando bem percebi, era um caderno que reunia alguns escritos sobre rosacrucianismo e... Catimbó! Creio ter localizado o primeiro texto que escrevi sobre o assunto.

Antes que as traças carcomam de vez o que nele depositei, segue uma cópia quase literal do texto - intitulado Tabaco, amescla e alfazema, em meu cachimbo de jurema.



"Em Meleagro, Câmara Cascudo afirmava:

O catimbó provirá inicialmente do feiticeiro solitário, individualista, cioso dos processos bruxos europeus e das muambas negras, figura comum a todos os países e momentos do mundo. [...] Paralelamente a esses feiticeiros, mestiços, mamelucos ou negros ex-escravos, velhos, residindo em mocambos fora da cidade e da vila, havia o "adjunto de jurema", cerimônias simplificadas do culto indígena, a dança coletiva tupi, realizada em segredo, com fins religiosos e terapêuticos. Em toda a parte o indígena fazia, às escondidas, o seu "adjunto" [Cascudo, 1978: 90-91].

Não é de hoje que o termo "catimbó" está relacionado à feitiçaria, e "jurema" à cura. Há quem diga que são coisas diferentes e até mesmo contrárias. Todos os juremeiros de Canguaretama com os quais conversei, se por acaso são chamados catimbozeiros, não tardam em contestar e explicar: Jurema não é catimbó. Assim, dona Severina Cutia, do bairro Areia Branca, quando perguntada sobre o que é catimbó, respondeu sem pestanejar - "Catimbó é porcaria". Dona Maria Fernandes explicou com maiores detalhes: catimbó é trabalho feito no chão, pra prejudicar pessoas; Jurema é trabalho de mesa, na mesa se desfaz o catimbó.

Coisa realmente difícil é encontrar um catimbozeiro. Só se encontram seus trabalhos, suas feitiçarias - algumas endereçadas a juremeiros, o que indica a existência de querelas entre juremeiros e catimbozeiros. Dona Severina Cutia me falou de um despacho que lhe jogaram, com velas pretas e vermelhas; explicou que não surtiria efeito porque seu "nome verdadeiro não é Severina de Cutia, e a Pomba Gira é minha amiga". Dona Zélia talvez tenha sido a mais famosa catimbozeira da Penha. Todas as juremeiras com as quais fiz amizade me falaram de seus trabalhos malignos. Infelizmente não consegui conversar com Zélia - ela está internada, ficou doente de tanto prejudicar os outros.

Por acaso pude assistir a um "trabalho de chão" em Canguaretama, uma única vez. Feitiçaria pesada, com velas escuras, areia de cemitério e o osso do joelho de um defunto. As velas foram raspadas e misturadas à areia e ao osso, junto aos nomes de pessoas odiadas pelos assistentes. Tudo deveria ser enterrado. A protagonista: Cigana Bomba de Arraso, uma mestra da esquerda, que alegou só não fazer mais mal porque as pessoas que ali estavam tinham bons corações. No entanto, asseguram-me os juremeiros, catimbó forte se faz na mata, sozinho, em baixo de um pé de jurema. Eis aqui a relação catimbó-jurema.

Na mesa de Jurema, muitos mestres que descem são catimbozeiros. Embora na maioria das vezes, o presidente não permita que mestres de esquerda realizem seus trabalhos, eles se fazem presente e anunciam seus pontos.

Salve Antônio Pelintra!
Salve na direita!
E salve na esquerda!
Na direita eu sou bom, mas na esquerda eu sou melhor!

Anunciou certa vez o irmão do caboclo Zé Pelintra, após cantar seu ponto:

Tá chovendo e tá relampeando e tá trovejando
Eu não posso andar.
É bonito e tenho que ver
Antônio Pelintra e seu baianar.

E na matéria da mestra Maria Fernandes, o Rei Sipuá cantava, alertando os assistentes:

Eu venho, eu venho
Do canto do mar
Eu já vi no seu reinado
Sereia cantar

Rei Sipuá - Eu sou o mestre dos pauzinho!
Rei Sipuá - Eu sou um cara danado.
Rei Sipuá - Bato com negro no chão.
Rei Sipuá - Nego vai porque eu quero.
Rei Sipuá - Levo nego à sepultura.
Rei Sipuá - Eu mandei tocar o sino.

Assim, na mesa da Jurema, se fazem presentes: caboclos, pretos-velhos, catimbozeiros e animais encantados.

Embora o primeiro seja considerado feitiçaria, tanto o catimbó quanto a Jurema possuem pontos em comum. Muitos mestres espirituais, catimbozeiros falecidos, trabalharam tanto na direita quanto na esquerda. Teoricamente, o juremeiro não admite os "trabalhos de chão", a "mesa baixa", enquanto o catimbozeiro, deliberadamente opera nas duas linhas, solta fumaça às esquerdas quanto às direitas.

No catimbó há uma espécie de fitolatria à planta Jurema. Com ela se prepara uma bebida sagrada através da qual pode ser alcançado o êxtase místico. Outras vezes, é bebida e fumada. Venerável desde os tempos da pajelança indígena. Tanto a jurema branca quanto a jurema preta são usadas no catimbó - na maioria dos casos misturadas a cachaça ou vinho e outras plantas. Um único senhor, ex-catimbozeiro, em Natal, citou o uso da bebida no estilo indígena, à base de hidromel. Os demais ingredientes e o modo de preparar a bebida são segredos".

Deixo claro aos que leram as linhas acima que ao longo desses dez anos de pesquisas e vivências, pude constatar que quase tudo o que foi dito no rascunho acima copiado, sobre Catimbó e Jurema, está parcialmente equivocado ou errado.

Estudos antropológicos, historiográficos, linguísticos e esotéricos vêm sendo realizados - pesquisas que, no que se refere ao estudo dos cultos à Jurema, me fazem ir muito além dos conceitos dicotômicos e bélicos que lembram a síntese acabrunhada "bem versus mal", "deus contra diabo", etc. implantada em nossas vidas ao longo de meio milênio de catequeses católico-protestantes (que geralmente não permitem ao catequizado aprofundar-se em qualquer "mistério", antes transformando sua vida em um eterno conflito da luz contra as trevas, branco contra preto, alto contra baixo, rico contra pobre, direita e esquerda, mais e menos, melhor e pior... e como a maioria dos catimbozeiros por mais "rebeldes" que sejam são fortemente influenciados pelo católico-protestantismo, não deixam de fazer seus votos a Deus e/ou a Satanás!). 

Por qual motivo, então, trazer a lume o ensaio transcrito, estando ele cheio de erros e paupérrimo? Primeiramente por sentir de socializar com os interessados e interessadas no tema, um de meus primeiros rabiscos sobre Catimbó; em segundo lugar, para que não se perdesse a mal-rabiscada semente do que se tornou o estudo de minha vida.

Grande abraço de Luz e Fumaça!

Um comentário: