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sábado, 9 de outubro de 2010

VIAGEM AO CATU DOS ELEOTÉRIOS

Nos dias 25 e 26 de setembro, em nome do Grupo de Estudos Rosacruz Professor José Oiticica, organizei uma viagem-estudo à comunidade indígena Catu dos Eleotérios - localizada entre os municípios de Canguaretama e Goianinha. Participaram da viagem, Irmãos da Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz (AMORC), um estudante do Curso de Ciências da Religião (UERN) e outros amigos e amigas interessadas em culturas indígenas.

Um de meus objetivos é contribuir com o resgate do Culto à Jurema na comunidade. No Catu, conforme me contou um caboclo, paira um certo temor e desconfiança por parte de quem é juremeiro: temor histórico, fruto de antigas perseguições, em que suas crenças foram desrespeitadas e perseguidas. Por isso, no sítio, quem é juremeiro guarda segredo quase absoluto tanto de seu passado, quanto de sua identidade - as práticas de cura são realizadas às escondidadas, no segredo; os mais velhos evitam tocar no assunto.

Assim, convidei juremeiros de Canguaretama para participar do encontro acreditando que, com o apoio dos mesmos, no Catu esse temor será pouco a pouco superado. Juntos, na noite de sábado 25, ealizamos um "Adjunto de Jurema", um evento singular, nas matas, dirigido por membros do Terreiro Tupinambá (a Mestra Zélia Maria e o Mestre José Daniel).

No domingo 26, passamos a manhã caminhando nas matas, vivenciando um pouco da Natureza da região, conhecendo plantas medicinais que a milênios são utilizadas na terapêutica nativa, na cura de diversos males do corpo e da alma.

(Para saber mais sobre o Grupo de Estudos Rosacruz Professor José Oiticica, visite: www.gerpjo.blogspot.com).

terça-feira, 7 de setembro de 2010

16° GRITO DAS EXCLUÍDAS E DOS EXCLUÍDOS!

De um lado, o Estado paramentado com potentes caixas de som, apresentando ao povo extasiado seu poder bélico - seus soldados hierarquicamente organizados, divididos em vários agrupamentos, armados até os dentes; de outro lado, trabalhadores do Movimento Sem Terra, alguns militantes marxistas do PSTU e do POR, e um punhado de anarquistas - gritando por pão, terra e justiça social.

A cena se repete todos os anos, porém com cada vez menos militantes. No 16° Grito das Excluídas e dos Excluídos, faltaram os representantes da Igreja Católica (em tempos atrás, bastante envolvida em questões sociais, principalmente na luta pela terra para agricultores sem-terra) e de muitos partidos de esquerda. Não encontrei ninguém do PCdoB, do PSB, do PCB, do PT... Mas onde estavam esses "comunistas"? Fazendo campanha eleitoral, é lógico! Em época de eleição, pega mal sair nas ruas gritando "palavras de ordem" - mais interessante aos candidatos que disputam o poder é engrossar o caldo do Estado, cantando o Hino Nacional, dando uma de laranja, sorrindo para o povão.

A Igreja, pelo visto, não estava mobilizada: a Renovação Carismática Católica vem cumprindo corretamente sua tarefa de eclipsar de uma vez por todas a Teologia da Libertação, desinteressando os católicos das questões sociais, impregnando-os com o ritmo do "neo-pentecostalismo" católico.

Por volta das dez horas da manhã, quando os anarquistas arriscavam cantar o Hino às Barricadas, disputando com a potente sonoridade estatal, um grupo de mais ou menos trinta policiais penetrou o "Grito" e, por mais absurdo que seja, cercou os jovens libertários. Ora, esse tipo de protesto, a meu ver, é sem sentido. O Grito das Excluídas e dos Excluídos deveria, a meu ver, ser realziado em uma outra data, em um outro lugar - sem tentar "peitar" o poderio estatal. Poderia ser realizada uma campanha de esclarecimento para a população durante todo o mês de setembro, conscientizando-a da falta de sentido em se comemorar o dia 07: explicar a necessidade de lutar globalmente por menos armas e mais pão, pela socialização de terras, por mais educação, mais saúde, paz e tolerância. Não há lógica em comemorar uma independência que ainda não foi plenamente conquistada. Quando os Estados, em várias partes do mundo, apresentam suas armas, temos uma pálida idéia do quanto nossas sociedades permanecem violentas e atrasadas.

Seremos independentes e realmente livres quando a Natureza for respeitada, amada e venerada; quando os capitalistas europeus e norte-americanos forem desbancados da América Latina; quando as instituições religiosas autoritárias deixarem de existir; finalmente, quando o capitalismo, o socialismo de Estado e todas as outras formas de exploração forem banidas da face da Terra.

PROFESSORES NA RUA? MICARLA, A CULPA É TUA!!!

No dia 02/09/2010 - uma quinta ensolarada - os professores da rede municipal de educação reuniram-se no Sindicato de sua categoria, localizado na Avenida Rio Branco, para levantar propostas de luta contra a exploração dos trabalhadores, perpetrada pela prefeita Micarla de Souza. Após o sindicato, cerca de 200 a 300 professores saíram em direção à prefeitura, onde nos concentramos por quase uma hora.
O que está acontecendo é basicamente o seguinte: a prefeita contratou algumas centenas de professores, através contratos "feito de boca", cuja documentação ficou na Secretaria de Educação. De tais trabalhadores, há dezenas que não recebem salário há quatro meses, outros há três meses; a prefeita desconta ISS e INSS (de um contrato "feito de boca", sem qualquer documentação comprobatória estar em nossas mãos) e, além do atraso de nosso pagamento, não recebemos os contra-cheques dos meses pagos, não temos direito à vale-transporte, nem a férias, nem a décimo terceiro, e a prefeitura ainda ameaça "demitir" os que não estão indo trabalhar.
É lógico que, sem receber, não há como ir trabalhar, nem como sobreviver. E a prefeita Micarla, cara-de-pau, vai à emissora de sua família caluniar os professores explorados, afirmando que só param os maus trabalhadores.

Não podemos esquecer que A PREFEITA É UMA FUNCIONÁRIA DO POVO. Nós é que a pagamos como nossos impostos. NÓS ESTAMOS PAGANDO CARO PARA ELA DESAPARECER COM NOSSOS SALÁRIOS E DAR UMA DE SANTA-SORRIDENTE. Sexta-feira, dia 10/09/2010, com as bênçãos do Supremo Arquiteto do Universo, estaremos reunidos mais uma vez em frente à prefeitura, para protestar contra mais uma injustiça praticada por aqueles que ainda estão no controle da sociedade.

AVANÇA, NATAL! CHEGA DE TOLERAR ESSAS FALCATRUAS! ORGANIZA-TE! ANULE SEU VOTO OU ANULE-SE!

ANIVERSÁRIO DA MORTE DO ÍNDIO POTI


No dia 24 /08/2010, na praça 7 de Setembro, no Centro da Cidade, foi comemorado o aniversário da morte do Índio Felipe Camarão, o Índio Poti, agora eleito Herói Nacional pelo Exército Brasileiro.

No evento, além do exército, estiveram presentes alunos das escolas Djalma Maranhão (localizada no bairro Felipe Camarão) e Irmã Arcângela (localizada no bairro do Igapó).

Além de apresentações musicais realizadas pela banda do Exército e pela Conexão Felipe Camarão, foi destaque a apresentação do grupo CABOCLINHOS de CEARÁ MIRIM, formado por remanescentes indígenas moradores da área rural do citado município.

sábado, 14 de agosto de 2010

ENCONTRO ENTRE CABOCLOS: IGAPÓ, CEARÁ MIRIM E MENDONÇA DO AMARELÃO

Em uma bela sexta-feira, 13/08/2010, pelas nove da manhã, saímos da escola municipal Irmã Arcângela (bairro do Igapó, Zona Norte), em direção ao município de Ceará Mirim. Eu, Alcides Sales e outros amigos. O professor Alcides levou algumas dezenas de alunos para visitar comunidades de remanescentes indígenas.
Nossa primeira parada foi no povoado de Rio dos Índios, em Ceará Mirim. Lá juntaram-se a nosso grupo alguns caboclos e caboclas, com os quais nos dirigimos à comunidade Mendonça do Amarelão, localizada em João Câmara. Foi um encontro muito bonito. Uma irmã, freira, que desenvolve trabalhos sócio-culturais com os Mendonça, já nos aguardava, junto a uma lider da comunidade.

Fomos recebidos pela orquestra da comunidade, com músicas embaladas por flautas e violão. Após linda recepção, vieram nossos agradecimentos: o professor Alcides convidou-me para participar, junto a ele, um professor de língua Guarany e alguns de seus alunos de uma apresentação, na qual puxamos, ao som de maracás e percussão, linhas de Jurema e Toré.
Alcides discursou sobre Felipe Camarão. No dia 24 de agosto deste ano, na 7° Brigada, haverá uma comemoração na qual estarão presentes índios da Baía da Traição e estudantes de algumas escolas da cidade do Natal: os militares elevaram o Índio Poti ao patamar de Herói Nacional.

Felipe Camarão, no século XVII, aliado à coroa portuguesa, rebelou-se contra os holandeses que tentavam conquistar o Brasil. Mesmo vitimado pela dengue, em 19/04/1648, Felipe Camarão - o Poti - guerreou ao lado de 2.000 "brasileiros", derrotando 5.000 soldados protestantes holandeses.

Quatro meses depois, o Índio Poti viria a falecer. Em 28/08/1648, tendo sido enterrado no Recife.

Depois de seu discurso, Alcides Sales me surpreendeu, convidando-me para dizer algumas palavras sobre a religião indígena - a Jurema Sagrada. Tentei dizer algumas coisas, fundamentais sobre o culto de matriz autóctone nordestina, mas minhas palavras foram deveras superficiais. Nada que caboclo já não soubesse...

sábado, 7 de agosto de 2010

UM MILAGRE CUSTA R$ 900,00

Caríssimos(as), alguns de vocês já devem ter assistido, nem que seja por um minuto, aquele pastor que fala grosso e fala fino, que grita e é aplaudido por centenas de pessoas - o Silas Malafaia. Assistam ao vídeo e vejam qual é a da "Teologia da Pro$peridade" e qual é a do $ila$:

A condição para que todas as promessas de Deus se realizem em tua vida, segundo o "profeta", é doar r$ 900,00. O que acham disso? Interessante como os "evangélicos" condenam outras religiões, tachando-as de esoterismo, mas, contraditoriamente, fazem uso de numerologia e, em outras ocasiões, de rosas, vasos, mesas brancas, corredores de sal, etc.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

PREFEITURAS E SUAS MUTRETAS...


Nesta madrugada um tanto sórdida, vou passando para escrever um "panfleto". É que as eleições estão chegando e, com toda a baderna e desrespeitoso barulho que os candidatos andam fazendo pela rua, acrescidos das falcatruas e larápias das duas prefeituras das quais fui vítima (Natal e Canguaretama), me senti inspirado para postar algumas palavras.

Até onde me consta, o jovem prefeito de Canguaretama, Wellison Carlos, e sua equipe administrativa agiu anti-constitucionalmente contra centenas de trabalhadores do município: reduziu os salários de quase todos. Foram cortados mais de R$ 200,00 de cada trabalhador, inclusive de professores. Além disse, o jovem prefeito, tão apoiado por muitos professores que acreditavam que iria fazer coisa melhor que o ex-prefeito Jurandir Marinho - comendo em prato tão sujo quanto o do velho Jura - acabou demitindo mais de dez professores de Natal que há anos prestavam serviço à prefeitura de Canguaretama - SEM PRESTAR CONTA DE NENHUM CENTAVO. Além disso, segundo alguns amigos que moram na citada cidade, foram contratados alguns "professores estranhos" para substituir os demitidos... Professores que mal haviam terminado o ensino médio, sem qualquer preparo didático-pedagógico, passaram a lecionar em algumas escolas, com a chancela do secretário de educação e o carimbo do prefeito. Nas mãos de um irresponsável, qualquer cidade cai por terra. Canguaretama, um município tão importante para a História e a cultura do Rio Grande do Norte, vem sendo "revezada" nas mãos de prefeituras imprestáveis.

O caso de Canguaretama é comparável ao que acontece com a capital do Rio Grande do Norte - Natal, a "cidade do Sol". A prefeitra Micarla de Souza, com o seu jeito verde de governar, vem dando mostras de uma administração pública horrível: falta material hospitalar, faltam os salários dos professores (tanto dos efetivos quanto dos que contratados prestam serviço), faltam as passagens de ônibus dos servidores públicos (desde janeiro a prefeita não repassa ao TRANSPASSE o dinheiro das passagens dos professores, mesmo descontando de cada professor o valor do transporte)... E o mais interessante, a sorridente prefeita, com a velha e característica cara-de-pau de todos os políticos eleitoreiros e partidários, segue alugando imóveis beira-mar cujo aluguel custa nada menos que R$ 12.000,oo por mês. Por mais contraditório, recentemente foi inaugurada - com festa e propaganda nas ruas - uma escola municipal aqui no bairro... mas não adianta disfarçar e tentar tapar o sol com a peneira: uma escola sem professores não funciona. E como os mestres e mestras poderão lecionar com um, dois... e até cinco meses de salário atrasado? É o verdadeiro "AVANÇA, NATAL!"
Quando eu era adolescente, na década de 1990, o Partido Verde possuía propostas muito interessantes, de autogestão, socialização, ecologia, etc. Entretanto, como o mundo da política partidária sempre é muito obscuro e hipócrita, e todos os conchavos podem ser realizados na luta tosca pela obtenção do poder, o verde vai se tornando cinza, e o trabalhador permanece explorado, enganado, vilipendiado, em um Estado no qual a governadora é "socialista" (PSB) e "professora".

A população, que sustenta a vida socio-econômica com seu próprio sangue, suor e lágrimas, precisa se organizar para desenvolver novos mecanismos e novas formas de organização nas quais não possa haver espaço para exploradores. Livres de todos os tipos de parasitas, estaremos dando um grande passo na conquista dos rumos de nossas vidas. As eleições são, inevitavelmente, uma farsa estatal, visto não transformarem profundamente as sufocantes estruturas nas quais estamos inseridos. Através de eleições, muda-se o governo, o prefeito, mas o regime desigual e autoritário fundamentado na existência do Estado (seja capitalista ou comunista), portanto, embasado na exploração, não sofre quaisquer abalos significativos. Faço uso, por isso, de um velho chavão anarquista: VOTE NULO! ORGANIZE-SE SEM PARTIDO! NÃO SUSTENTE PARASITAS!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

VITÓRIA CRISTÃ

As idéias básicas difundidas pelos "teólogos da prosperidade" são, em linhas gerais, as seguintes: a riqueza material é sinal de Bênção de Deus, portanto, se você é rico, foi Deus quem te escolheu e está te abençoando; já a pobreza material é consequência do pecado, ou seja, se você é financeiramente pobre significa que você é um grande pecador.
Seguindo essa linha de raciocínio, ao converter-se verdadeiramente, aceitando Jesus como único salvador, além da salvação da alma o crente viverá seus dias na Terra em plena fartura e abundância de bens: terá uma boa casa, um ou mais carros (se dermos crédito às propagandas da Igreja Universal do Reino de Deus, o fiel chegará a ter mansões, automóveis, fará viagens internacionais), etc. Já o "descrente" catador de lixo, pobre e sujo, que morrer na sarjeta, é culpado por sua própria miséria - visto não ter aceitado a Cristo, tornou-se vítima do diabo.
A idéia de predestinação é outro argumento utilizado de modo absurdo pelas igrejas-empresas que florescem no Brasil e no mundo: Deus, por motivos que só Ele conhece, selecionou algumas pessoas para serem salvas, deixando outras à condenação eterna, no inferno. Não adiantaria questionar a Vontade Suprema nem perguntar o "porquê" de tal seleção.
Unindo predestinação e prosperidade, temos como resultado final a ideologia protesante neo-pentecostal e pentecostal: se você possui muitos bens materiais, se é cheio da nota, foi Deus quem te escolheu desde antes do mundo existir, para te abençoar nesta vida e na vida futura no Reino dos Céus; mas, como o salário do pecado é a morte, se você é pobre, a culpa é sua, pecador, que não aceitou a Cristo como Salvador - tua pobreza é conseqüencia de teu pecado - e Deus, por um motivo Supremo que só Ele sabe qual é, permitiu tua vinda ao mundo mas te excluiu, autorizou tua pobreza material nesta vida e fora do Paraíso futuro.
Interessante notar o quanto essa "teologia (capitalista, norte-americana) da prosperidade" está em desacordo com o Evangelho. O Novo Testamento é permeado de ensinamentos do Cristo Jesus, ensinamentos que, se fossem realmente seguidos ao menos por um terço dos cristãos, mudariam profundamente a face do mundo.
Esquecem os "evangélicos", por exemplo, que, para o moço rico, o que lhe faltava para ser perfeito era vender o que possuía e dar o dinheiro obtido aos pobres... "e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me" (MATEUS, 19, 21). Esquecem os "predestinados" que, segundo o próprio Cristo "o rico dificilmente entrará no Reino dos Céus" (MATEUS 19, 23). Entretanto, não são apenas estes os versículos "esquecidos" - ou boicotados - pelos pastores.
"Então Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: 'Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões!'" (MATEUS 21, 12-13).
Quando nos dirigimos à praça Gentil Ferreira, no bairro do Alecrim, encontramos em volta da igreja Assembléia de Deus, várias lojas "evangélicas" nas quais além de bíblias de todos os preços (o livro mais vendido no mundo!), estão à venda: livros de doutrina - nada contra a venda de livros de estudo! - cd's e dvd's gospel e... Chaveiros, canetas, adesivos, camisas, blusas de uma dita "moda evangélica" - o que facilmente nos faz compreender o quanto os cristãos estão inseridos nas coisas do mundo, no comércio puramente capitalista, na aquisição de mais valia e na politicagem da pior qualidade.
Nos Atos dos Apóstolos, capítulo II versículos 44-46, está escrito: "Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um". No mesmo livro, no capítulo IV versículos 32-35: "A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação. Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade."
Muto se fala em "verdadeira igreja de Cristo" e em viver o verdadeiro Evangelho. Entretanto, segundo o próprio Evangelho, aquele que conhece a Cristo anda como Ele andou. Mas quem, atualmente, procura viver como João Batista, Cristo ou os verdadeiros apóstolos viveram? Seria o Silas Malafaia, o Valdemiro Santiago, o R. R. Soares ou o Bispo Macêdo? Esses são empresários e não "servos do Senhor", jamais estariam dispostos a enfrentar o "império romano" de nossos dias (preferem as alianças políticas) e nunca viverão no deserto, comendo "gafanhotos e mel silvestre". Qual igreja contemporânea vive conforme se organizaram os primeiros e autênticos seguidores de Jesus Cristo, as primeiras congregações cristãs? Nenhuma das que estão em evidência. Os cristãos dos primeiros tempos procuravam romper espiritual e materialmente com os valores do mundo, enquanto os cristãos de hoje, em sua maioria, buscam inserção econômica e status político, quando não estão envolvidos em trapaças da pior categoria. Pregam uma separação das coisas do mundo, mas a "Vitória" tão propalada pelas igrejas, mais do que qualquer coisa parece ser uma vitória financeira - quando deveriam se preocupar primeiramente em alcançar o Reino dos Céus, para que tudo o que fosse necessário lhes fosse acrescentado; e quando nosso tesouro deve ser espiritual, e não material, conforme pregou o Nazareno Filho de Deus.
A suposta certeza de salvação deixou a maioria dos cristãos orgulhosos, um orgulho malvado, preconceituoso, que exclui as diversidades, que inferioriza o próximo. Ser crente, na prática, acaba sendo ser superior as demais pessoas "descrentes", o que inverte a pregação do Cristo que a todos amou, perdoou e serviu.
O capítulo 23 do Evangelho de Mateus nos mostra o quanto continua atual o discurso de Cristo sobre a hipocrisia e vaidade dos escribas e fariseus. Poderíamos utilizar esse texto bíblico para tratar da hipocrisia e vaidade de pastores e padres.
"Os escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Portanto, fazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis suas ações, pois dizem mais não fazem. Amarram fardos pesados e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se dispõem a movê-los. Praticam todas as suas ações com o fim de serem vistos pelos homens. [...] Gostam [...] de receber as saudações nas praças públicas e de que os homens lhe chamem 'Rabi'.
Quanto a vós, não permitais que vos chamem 'Rabi', pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A ninguém na terra chameis 'Pai', pois só tendes o Pai Celeste. Nem permitais que vos chamem 'Guias', pois um só é vosso guia, Cristo. Antes, o maior dentre vós será aquele que vos serve."
Façamos uma breve reflexão: sob o argumento de divulgar o Evangelho, os pastores, padres, cantores pop, jogadores de futebol evangélicos - mas não apenas esses - fazem de tudo para serem vistos, fazem de tudo para aparecer em todos os meios de comunicação possíveis, sejam tais meios "evangélicos" ou não, nas ruas e praças, nas escolas, nas aldeias, o importante é a venda, a catequese, a conversão, o aumento do número de fiéis na igreja, finalmente, o crescimento material da instituição e de seus dirigentes. Tudo isso mascarado com o termo "salvação". Para ser salva a ovelha precisa ser obediente a seus pastores, jamais questionar, por mais duro que seja o fardo e o imposto. Quem há de questionar um "profeta" que adivinha publicamente, que "expulsa demônios", que é o porta-voz de Deus na Terra?
Assim, os líderes "cristãos" não medem palavras: ridicularizam, condenam, diabolizam tudo o que não se insere em suas intrepretações bíblicas; entram em transe ou provocam histeria coletiva, algumas vezes, transes mais violentos do que os transes dos terreiros de Umbanda - gritam, proferem com alarido palavras em "línguas estranhas", desmaiam, contorcem o corpo, correm, pulam de um lado para outro, andam de costas, etc., alegando que isso é uma manifestação do Espírito Santo de Deus; aparecem na televisão se auto-intitulando "mensageiros de Deus", "apóstolos", "discípulos", "pastores", "profetas" e "pais" (o termo "padre", em latim, significa "pai" em português)... e as ovelhas, que nada questionam, que geralmente só lêem o que os dirigentes selecionam, engolindo todas as trapaças, repetem feito robôs a programação insuflada em suas vidas.
Bem pouco humildes são os dirigentes das igrejas Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Mundial do Poder de Deus, dentre outras congêneres, maiores e menores. Não há necessidade de citar a Igreja de Roma, fragmento do Império Romano. Vejamos outro trecho do capítulo 23 de Mateus:
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem! Que devorais os bens das viúvas, com o pretexto de fazer longas orações; [...] que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito, mas, quando conseguis conquistá-lo, vós o tornais duas vezes mais digno da geena do que vós! [...] que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas omitis as coisas mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. [...] Condutores de cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo! [...] Que limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheio de rapina e intemperança" [...] Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão. Assim também vós: por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade. [...]".
Brevemente continuarei esta reflexão. Lembro aos queridos e queridas que visitam este blog, que não sou anti-cristão. Muito pelo contrário, me sinto indignado com a bagunça que andam fazendo com o santo Evangelho. Deus não é propriedade de ninguém e a meu ver deve ser respeitado por todos. Acredito, também, que todas as culturas merecem respeito e que as religiões precisam conviver em reverência mútua - se é que realmente são a favor da Paz e do Amor. Segue mais um vídeo, sobre evangélicos explorando indígenas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

OS "CRISTÃOS" IRÃO MELHORAR O BRASIL?

O Brasil, ao que parece, é o maior país católico das Américas. Entretanto, independente da histórica catequese forjada neste país e da grande influencia do catolicismo romano em vários aspectos da vida do povo brasileiro, o rápido crescimento do número de crentes evangélicos salta às vistas. Católicos e evangélicos formam a grande massa de cristãos no país em que vivemos, sendo minorias os cristãos ortodoxos, espíritas cristãos e gnósticos.
Entre católicos e protestantes, a cada novo dia, são centenas de novos convertidos: caristmáticos, pentecostais e, principalmente, neopentecostais, fundam novas igrejas e grupos dos quais jorram curas milagrosas, transes coletivos e exorcismos públicos, dirigidos quase sempre por padres galãs e pastores bem pouco humildes - os auto-intitulados "discípulos", "apóstolos", "bispos", "profetas", etc.
O número de cristãos aumenta, mas, infelizmente, não há qualquer melhoria significativa na sociedade brasileira. O maior país católico vem deixando a desejar em matéria de amor ao próximo, enquanto os irmãos e irmãs evangélicos, independente de todas as pregações virtuais e do discurso amoroso de suas lideranças - belas palavras de humildade, perdão, miséricórdia e bondade - os irmãos evangélicos em sua maioria repetem com nova roupagem as arbitrariedades cometidas por seus pais católicos.
A contradição começa entre os próprios cristãos: católicos e protestantes há séculos não se "tragam". Para os evangélicos, os católicos continuam sendo, no mínimo, equivocados religiosos, no máximo, adoradores de imagens, pagãos, idólatras, seguidores da besta 666 (o papa). Já para as ovelhas de Bento XVI, católicos convictos, malgrado o discurso ecumênico da Igreja de Roma, a Igreja Católica Apostólica Romana é a única e autêntica e verdadeira Igreja deixada pelo Cristo na Terra: fora dessa Igreja nenhuma salvação é possível, visto que "Cristo é a Igreja".
O que podemos dizer, então, do que católicos e evangélicos afirmam sobre os membros de outras religiões? Foi usando o Nome do Filho de Deus que grupos cristãos em ascensão perseguiram, prenderam, torturaram e assassinaram membros de outras religiões e cultos em praticamente todos os continentes. E hoje, em nome do mesmo Nazareno, católicos e evangélicos, no Brasil e na África, principalmente, tratam com enorme falta de respeito e humildade membros de religiões de matrizes afro-indígena.
Missões cristãs, sob a propaganda de levar educação e saúde para comunidades indígenas esquecidas pelo governo, levam consigo idéias e valores alheios às culturas nativas: implantam a cultura do pecado, o temor ao diabo cristão (ícone essencial e golpe ideológico de todas as igrejas); fundam igrejas nas quais se exige dízimo (que em algumas aldeias é pago com frutas) e, o pior de tudo, desmoralizam e diabolizam os indígenas que, mediante as catequeses católico-protestantes, relutam em "aceitar Jesus como seu salvador pessoal".
O que falar, então, dos ataques ideológicos difundidos pela grande imprensa evangélica-católica, contra os cultos afro-brasileiros? Há alguns anos, o discurso extrapolou a teoria - cristãos passaram a atirar bíblias em terreiros, a dar com a bíblia na cabeça de afro-religiosos, a invadir e destruir patrimônio umbandista, autênticos atos de vandalismos encetados por parte daqueles que deveriam amar ao próximo como a si mesmos.
E pra piorar a situação, não é incomum encontrar um cristão simpatizante do espiritismo kardecista que engrosse o caldo do discurso evangélico - o mesmo espírita satanizado pelo protestante -, afirmando que Umbanda, Candomblé e Jurema, "são cultos ultrapassados, de espíritos viciados e atrasados, entidades espirituais inferiores". Isso nos leva a refletir para onde o cristianismo de nossos dias irá conduzir a sociedade brasileira.
Vejamos um vídeo interessante. É assistir e refletir.

Observemos, em meio a tanta imoralidade e falta de amor, as contradições difundidas aos quatro ventos pelos "líderes" cristãos de nossos dias: "não devemos nos envolver com as coisas do mundo, pois nossa luta é espiritual", "trevas não se misturam com luz, portanto, crente não casa com espírita", "como se livrar de um Testemunha de Jeová", "não somos do mundo", etc. etc. etc. Cheiro forte de hipocrisia - pastores pregam uma separação radical das "coisas mundanas", mas não deixam de se envolver, por exemplo, com política da pior qualidade -a política partidária - havendo inclusive uma bancada evangélica no congresso.

Igrejas organizam-se em forma de empresas, com automóveis e bens imóveis sendo usufruidos por pastores e apóstolos - mas que são bens que são propriedades das igrejas, havendo inclusive seminários em cujas grades curriculares consta a disciplina "administração empresarial". Tantas coisas do mundo conquistadas via dízimo, para honra e glória do Deus que sempre foi Senhor e dono de toda Honra e toda Glória (mas também para o bem estar material, para os vôos e hotéis cinco estrelas, de apóstolos e profetas "escolhidos desde antes dos séculos, predestinados, para a realização das obras de deu$ na terra". Sem falar das lojas evangélicas que andam vendendo "moda gospel", blusas, calças e demais adereços com estampas "Jesus Cristo é o Senhor"...

Tiro o chapéu para os poucos cristãos que realmente vestem a camisa do Evangelho, realizando trabalhos que ultrapassam o nível da filantropia e procuram, literalmente, romper com as amarras do mundo e alcançar a emancipação social-moral-espiritual via Amor, difundida por Jesus de Nazaré. Entretanto, é fato inegável: pregação bíblica do Jesus Messias - buscar os tesouros do Céu, onde nem o ladrão rouba, nem a traça corrói; dividir os bens materiais com os membros da comunidade cristã, conforme suas necessidades; vender as propriedades e doar o dinheiro aos pobres, etc. - essas Palavras há muito vêm sendo sufocadas, abandonadas, conscientemente banidas dos púlpitos das igrejas e da vida de quase todos os cristãos do mundo. Esquecidas pela grande maioria dos fiéis, que geralmente buscam uma vitória muito individual e meramente financeira, foram substituídas por uma "teologia da prosperidade", sobre a qual direi algo em futuras postagens e apresentarei outros vídeos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Hipocrisia dos Apóstolos e Discípulos

Que critérios você usa
para dizer que estou excluído?
O peso que me pesa será revertido
em teu próprio prejuízo.
Quem você pensa ser
me perguntando se conheço Deus?
Quem conhece Deus só pode ser Deus,
pois anda como Ele andou e vive come Ele viveu.
Irmão, Deus não vive no teu bolso.
Ele me ama do jeito que eu sou.
Não preciso gritar, chorar ou me contorcer...
Amando a Deus na exclusão do irmão -
tentando dominar e submeter,
falando de inferno, grana, poder,
me tachando de diabo... você me parece um bom cristão.
Um fiel agente do clero,
tão bom quanto aqueles que serviram a Cristo
alterando os Evangelhos...
Tão santos quanto aqueles
que perseguiram os pagãos,
prenderam os gnósticos,
lascaram os judeus e muçulmanos,
queimaram cátaros e templários,
excomungam catimbozeiros e maçons
e queimam ocas de indígenas.
Justos são todos os cristãos
que pedem a Deus dinheiro.
Semelhantes àqueles evangélicos que lincharam católicos,
e aos católicos que enforcaram evangélicos.
Fiéis agentes das inquisições católico-protestantes:
assassinos santos, sádicos sagrados, vampiros do céu.
Em nome de Cristo fazem o sangue correr.
Cristão, você não tem nada a ver com Jesus Cristo.
Cristão, você não morreria por ninguém.
Quanto custa a nova versão Bíblia?
Onde está o comunismo dos primeiros cristãos?
Na loja do Alecrim há um broche, um adesivo e uma jaqueta de Jesus.

segunda-feira, 8 de março de 2010

NOVO JORNAL NÃO GOSTA DOS ÍNDIOS

Na edição de 13 de janeiro de 2010 (Ano 01 - n° 48), o Novo Jornal apresentou, logo na capa, a fotografia de um dos indígenas mais ativos da comunidade Catu dos Eleotérios - o pedagodo Vando, 49 anos.
Segurando um maracá (instrumento sagrado para os índios do litoral brasileiro), sentado em frente a um computador (seu instrumento de trabalho), Vandré Gecílio foi maliciosamente apelidado de "Índio Banda Larga". Na matéria (página 08), tão bizarra quanto a do sr. Cassiano Arruda Câmara (18/01/2010), uma série de inverdades. Vejamos algumas das mentiras deslavadas do Novo Jornal:
"ÍNDIOS DO NORDESTE PROTESTAM CONTRA MUDANÇA NA FUNAI" - É título da matéria.
Após comentar o protesto que índios nordestinos realizaram na sede da FUNAI, em Brasília, os "artistas" do Novo Jornal tratam do Catu.
"Nem associação indígena reconhece "tribo" do RN"

"No Rio Grande do Norte, existem quatro comunidades de descendentes indígenas, nos municípios de Assu, Goianinha, João Câmara e Canguaretama, nenhuma delas reconhecida pela FUNAI ou pela Associação dos Povos Indígenas do Nordeste (APOINME)."
NOTE A MALÍCIA OU IGNORÂNCIA DO REDATOR: ESSAS COMUNIDADES ESTÃO EM PROCESSO DE RECONHECIMENTO. COMO JÁ FOI DITO NESTE BLOG, FUNAI E GOVERNO FEDERAL REALIZARAM EM NATAL/RN - DE 11 A 14 DE DEZEMBRO DE 2009, A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA INDÍGENA DO RIO GRANDE DO NORTE - RECONSTRUINDO A CIDADANIA, NA QUAL ESTIVERAM PRESENTES REPRESENTANTES DAS QUATRO COMUNIDADES. MEMBROS DESSAS COMUNIDADES PARTICIPARAM DA VI ASSEMBLÉIA DA APOINME, NA PARAÍBA, EM 2005.
SEGUE O NOVO JORNAL SUA SÉRIE DE FALÁCIAS:

"Apesar da ascendência declarada, a comunidade em nada lembra uma aldeia indígena. Os descendentes moram em casas de alvenaria, com água encanada, luz elétrica e utensílios domésticos como televisão, computador, fogão e geladeira. Nenhum dos moradores pratica a agricultura, caça ou pesca."
COMO JÁ FOI DITO NESTE BLOG, O FOGO DA USINA DESTRUIU CONSIDERÁVEL PARTE DA FAUNA E DA FLORA NATIVAS - ENTRETANTO, EMBORA PRATICAMENTE NÃO EXISTA MAIS O QUE SER CAÇADO, A MAIORIA DOS MORADORES DO CATU SOBREVIVE DA AGRICULTURA. AS FAMÍLIAS QUE POSSUEM MEMBROS COM EMPREGOS INFORMAIS OU CARGOS PÚBLICOS, NÃO DEIXAM DE POSSUIR SUA HORTA, COLETAR FRUTAS E PESCAR. O AUTOR DESSA MATÉRIA ESTEVE REALMENTE NO CATU? SE ESTEVE, FECHOU OS OLHOS PARA A REALIDADE DA COMUNIDADE.

"O tupi, língua nativa dos povos indígenas da região, sobrevive em palavras soltas memorizadas pelos mais velhos. Mesmos esses não aprenderam a língua pela tradição oral dos ancestrais, mas com um professor de tupi que vem de Natal duas vezes por semana, para ministrar aulas na escola João Lima da Silva, localizada dentro da comunidade".
A PARTIR DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVIII, O TUPI, A LÍNGUA ATÉ ENTÃO MAIS FALADA NO LITORAL BRASILEIRO, FOI PROIBIDA POR MARQUÊS DE POMBAL - O QUE LEVOU TAL LÍNGUA A SUA QUASE TOTAL EXTINÇÃO EM CONSIDERÁVEL PARTE DO TERRITÓRIO BRASILEIRO. ATUALMENTE HÁ ESCOLAS INDÍGENAS NAS QUAIS OS DESCENDENTES APRENDEM O TUPI ANTIGO - ESCOLAS LOCALIZADAS, POR EXEMPLO, NA PARAÍBA E NO ESPÍRITO SANTO. O QUE IMPEDIRIA OS MORADORES DO CATU DE REAPRENDEREM A LÍNGUA NATIVA?
O NOVO JORNAL COLOCOU UMA FOTO DO DESCENDENTE TAPUIA MANOEL SERAFIM SOARES, 63 ANOS, E ACRESCENTOU: "acredita que é índio porque ouviu isso do pai". TERRÍVEL BRINCADEIRA DE MAU GOSTO ATRAVÉS DA QUAL A TRADIÇÃO ORAL DOS MEMBROS DA COMUNIDADE É DESPRESTIGIADA.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

VELHAS MENTIRAS NO NOVO JORNAL

Na sexta-feira, 15 de janeiro de 2010, foi publicado no Novo Jornal, na coluna Roda Viva – autoria do senhor Cassiano Arruda Câmara – um artigo horrivelmente tendencioso sobre os indígenas do Rio Grande do Norte.

Manifestando argumentos ultrapassados e uma série de inverdades, o próprio título do artigo nos traz à memória uma mentira difundida há séculos, estereotipada, difundida em solo brasileiro por invasores europeus durante o processo de colonização: a falsa idéia de que o indígena, ao contrário do português invasor, era preguiçoso. Seguem o título do tendencioso artigo e alguns comentários - superficiais - sobre certos trechos do texto:

“ÍNDIO QUER MOLEZA” – é o título da brincadeira de mau gosto do senhor Cassiano Câmara.

“É difícil encontrar alguma coisa mais inconsistente do que um movimento indígena no Rio Grande do Norte. Afinal, aqui só existe índio em tempo de carnaval, assim mesmo as tribos continuam a existir para não perder as subvenções da Prefeitura”.

Após 500 anos de opressão e massacres, entre 11 e 14 de dezembro de 2009 foi realizada pela FUNAI e pelo Governo Federal, em Natal, capital do Rio Grande do Norte, a 1° Assembléia Indígena do Rio Grande do Norte, na qual estiveram presentes indígenas de quatro comunidades norte-rio-grandenses. O encontro deu continuidade a eventos anteriores (ocorridos em 2005, na UFRN e na Paraíba; e em 2008, em Natal e Fortaleza). Onde estaria a inconsistência de grupos que há anos vêm se organizando para reconstruir suas culturas e assumir suas identidades?

Outra questão com pouco fundamento levantada pelo senhor Cassiano Câmara é a estória das “subvenções da Prefeitura”. Que prefeitura? Seria a prefeitura de Canguaretama, a de Goianinha, a do Assu ou a de João Câmara? Nesses municípios, remanescentes indígenas tiveram coragem de assumir suas identidades. Independente disso, quais subvenções as prefeituras lhes oferecem? Cassiano Câmara sequer cita uma das benditas “subvenções”.

“[...] ser índio no Brasil tornou-se uma profissão e até um grande negócio.”

Só estando na pele dos índios para saber o “grande negócio” que é sofrer preconceitos de todos os lados – de grande parte da população que vive nos centros urbanos e, principalmente, da imprensa burguesa do tipo NOVO JORNAL – além de ser obrigado a aceitar o maldito modo de produção antiecológico capitalista que, como rolo compressor estraçalha, extermina e destrói culturas autênticas de povos ameríndios, inclusive daqueles que corajosamente assumem o “Ser” indígena buscando resgatar suas histórias e culturas.

“A Turma que faz esporte de aventura tem de pagar pedágio na vizinha Paraíba, onde existe um núcleo remanescente da tribo dos Potiguaras”.

Caríssimo leitor, o senhor deixaria que terceiros entrassem em tua casa, usassem teus eletrodomésticos, dormissem em tua cama, comessem tua comida, usassem teu banheiro, deixassem a sala suja e saíssem impunes? Creio que não. Quem limpa a sujeira da “turma que faz esporte de aventura” são os índios – os mesmos que outrora foram os primeiros habitantes e donos das terras do país em que vivemos. Após terem sido assaltados e exterminados em massa ao longo de séculos de colonização, os “remanescentes da tribo dos Potiguaras” têm o direito de cobrar o que acharem justo para aqueles que entram na pouca terra que o Estado lhes concede.

A partir do sexto parágrafo o senhor Cassiano inicia uma série de absurdos gritantes:

Por aqui, felizmente, desde que o índio Poti adotou o nome de Felipe Camarão e virou capitão das forças de Portugal, que aconteceu um processo de miscigenação que não deixou diferenças entre as diversas comunidades que fizeram o nosso Rio Grande do Norte.”

Cassiano Arruda Câmara, além de desconhecer a questão indígena norte-rio-grandense, desconhece a questão dos descendentes africanos – das famílias quilombolas da comunidade de Capoeiras, em Macaíba (RN), por exemplo. Há diferenças, senhor Arruda Câmara, diferenças que o intenso processo de miscigenação foi incapaz de eliminar – diversidades culturais e econômicas que vão além da cor da pele e dos traços do rosto.

“Este NOVO JORNAL foi até a comunidade do Catu, nas cercanias de Canguaretama, que tem uma população de 700 moradores, 10% dos quais se dizem índios. O depoimento mais contundente de um representante desta etnia – dos índios tapuias – baseia-se numa conversa que ouviu do pai, afirmando que sua avó era uma índia.
Já imaginou se algum mais sabido resolve seguir esse caminho, a transplanta para teoria da evolução, de Darwin, e termina conseguindo um diploma de símio...”


Todo o trecho citado acima é cretino. Através de que pesquisa estatística o senhor Cassiano Câmara pode afirmar que 10% dos moradores do Catu se dizem índios? O senhor Arruda e o NOVO JORNAL menosprezam a história oral dos moradores do Catu, assim como suas memórias. No Catu não há um único depoimento “mais contundente” dado por um representante étnico – há vários depoimentos importantíssimos para a História do Rio Grande do Norte, depoimentos de jovens e adultos segundo os quais fica patente que suas avós e bisavós não conseguiam se adaptar ao modo fixo, sedentário, de viver e preferiram habitar as matas no velho estilo nômade e seminômade dos índios que outrora habitaram o Brasil, correndo todos os riscos da época. O NOVO JORNAL pode até ter enviado um representante que passou ligeiro na comunidade Catu dos Eleotérios, localizada entre Canguaretama e Goianinha – mas o senhor Cassiano, nunca esteve por lá.

“Já imaginou se algum mais sabido resolve seguir esse caminho, a transplanta para teoria da evolução, de Darwin, e termina conseguindo um diploma de símio...”

Diploma de símio não existe, seu Arruda. Mas acredito que em alguns casos fosse mais digno ser um símio do que portar um diploma de jornalista. Aliás, não sei como certos "intelectuais" conseguem obter diplomas...
Será que Arruda ou o NOVO JORNAL conhece ou procurou conhecer as causas históricas que levaram considerável porcentagem da população do Catu a atualmente não assumir-se indígena? Arruda menospreza, ridiculariza, inferioriza não apenas os depoimentos, mas a história e a cultura dos moradores do Catu – um menosprezo sem fundamento calcado em calúnias que apontam um péssimo trabalho da “equipe” do NOVO JORNAL.

“Em Catu não existe ninguém que fale outro idioma que não seja o português.”

O senhor Cassiano Arruda Câmara desconhece História do Brasil. Em 1755, Marquês de Pombal proibiu as línguas indígenas no Brasil e transformou as missões católicas em vilas, substituindo os diretores padres por diretores laicos que exploravam a mão-de-obra indígena. Se até a primeira metade do século XVIII a língua mais falada no litoral brasileiro era o Tupi, de 1755 em diante essa e outras línguas nativas foram proibidas – repressão que se estendeu em muitas aldeias brasileiras até a década de 1970. Assim, em diversas tribos do Brasil o NOVO JORNAL irá encontrar muito índio falando português, da mesma forma que irá encontrar muitos índios reaprendendo o Tupi Antigo, a língua de seus ancestrais. Seria muito bom para a cultura da equipe do NOVO JORNAL que o senhor Cassiano estudasse algumas obras fundamentais de Luís da Câmara Cascudo, Tavares de Lira, Tarcísio Medeiros, Denise Monteiro e Francisco Alves Galvão Neto. Acredito que com um estudo um pouco mais aprofundado seriam evitadas matérias tão horrendas, para não dizer "maliciosas".

“Ninguém se dedica a caça e pesca.”

Isso é uma meia verdade. No Catu quase não há o que se caçar – o fogo da usina Estivas destruiu a maior parte da fauna e da flora nativas. Agora, afirmar que ninguém se dedica à pesca é uma mentira quase tão grande quanto dizer que “nenhum dos moradores pratica a agricultura” (outra mentira do NOVO JORNAL que questionarei em breve). O leitor que quiser comprovar visite o Catu e procure conhecer os trabalhadores da região.

“Quase todos moram em casas de alvenaria dotadas de água encanada, luz elétrica, fogão, geladeira, tevê e computador. Não se identificou qualquer disposição de nenhum deles retornar ao estágio primitivo, adotando a condição de silvícola”

Teria o NOVO JORNAL visitado todas as famílias do Catu dos Eleotérios e feito entrevistas com ao menos 10% dos moradores? A resposta é “não”. No Catu inteiro há três computadores, um dos quais sequer foi instalado na escola da comunidade. Lembre-se, Cassiano Arruda, que o Catu não é uma tribo indígena localizada no Alto Xingu, mas uma comunidade formada por descendentes indígenas que buscam reconstruir suas culturas e que ainda conservam traços da mitologia e do modo de vida e trabalho autóctone. Por mais explorados que sejam ou tenham sido, são trabalhadores que além da agricultura de subsistência, vendem parte do que cultivam e pescam e apenas uma minoria é contratada pelas prefeituras de Canguaretama e Goianinha. Além do fato da comunidade estar localizada entre esses dois municípios, seus habitantes estão inseridos em um contexto especificamente capitalista – o que os leva a consumir o que o capitalismo oferece. Mas parece que para o senhor, ser índio é viver no “estágio primitivo” (termo eurocêntrico ultrapassado mal utilizado na Antropologia atual), ou seja, o senhor deve acreditar que para ser índio é preciso viver nu no meio da mata, sem saber ler ou escrever, comendo carne humana em rituais antropofágicos

Link para ler o artigo na íntegra: http://www.novojornal.jor.br/2010/15012010/15opi04.pdf