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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

SOBRE A MEMÓRIA INDÍGENA NO CATU DOS ELEUTÉRIOS

Para que eu não esqueça uma boa conversa...

Sábado passado, finalmente, tive tempo para ir visitar alguns bons amigos e amigas no município de Canguaretama (litoral sul do Rio Grande do Norte). Nem todos pude ver, é verdade. A saudade continua imensa... Entretanto, o reencontro com algumas das que considero maiores personalidades do município foi ao mesmo tempo nostálgico e alegre.

Durante minha caminhada, após ter ido à "Rua do Quadro" e encontrado dona Neta (uma das maiores mestras de "Mesa Espírita" - Catimbó Jurema - da zona urbana de Canguaretama); e após ter visitado a mestra Maria Fernandes - outrora responsável pelo Centro Espírita de Umbanda Caboclo Zé Pelintra e Caboclo Panema, peguei uma mototáxi e fui à comunidade indígena Catu dos Eleutérios, localizada entre os municípios de Canguaretama e Goianinha.

Naquela noite tive a oportunidade singular de conversar com quatro veneráveis senhoras moradoras do Catu: Geralda, Silvina, Leonor e outra senhora cujo nome no presente escapou de minha memória. Em conversas anteriores, Geralda e Silvina me contaram que, quando jovens, assistiram nas matas do Catu (onde hoje só há cana de açúcar) alguns rituais de "Xangô". Descrevendo tais rituais, um deles me chamou a atenção: o "ritual tapuia".

Sábado passado, colhi mais informações sobre esse ritual. Segundo as octogenárias e septuagenárias senhoras, quem dirigia as cerimônias era um senhor moreno chamado Chico Lotéro (Francisco Eleutério, parente dos três irmãos indígenas da família Eleutério que em meados do século XIX receberam de um padre as atuais terras da comunidade).

Analisando as descrições das veneráveis caboclas, pude compreender que naquela primeira metade do século XX, o que havia sobrevivido dos antigos rituais indígenas já estava misturado com elementos cristãos e africanos. Um grupo de pessoas iniciava a dança, no meio da mata, vestidas com grandes saias brancas (o que me lembrou os trajes de Umbanda e Candomblé), porém, após um certo tempo, os "médiuns" tiravam essas roupas e ficavam seminus, usando apenas um punhado de folhas para esconder os sexos. Era o início do ritual tapuia.

A partir de então, uma memória foi trazendo outra em minha cabeça. Quem não lembra da pintura feita por Albert Eckhout (1610-1665) - "Dança dos Tapuia" - em que apenas um punhado de folhas escondia o sexo das índias gordinhas que assistiam a dança dos guerreiros Tarairiu? Tais folhas talvez não tenham sido pintadas apenas para esconder detalhes da nudez ameríndia do olhar cristão europeu...

Continuaram, as senhoras, relatando suas lembranças: os médiuns corriam pelas matas, dando gritos. Caso encontrassem alguém usando brincos, pulseiras ou colares, retiravam esses objetos das pessoas que assistiam os rituais (posteriormente, eram devolvidos pelo dirigente da sessão). Após as carreiras na mata, paravam e iam se alimentar de um manjar singular: mel, carne crua e vegetais. Já havia relatado Roulox Baro (holandês que no século XVII visitou o acampamento dos índios Janduí e escreveu um texto intitulado "Relação da Viagem ao Pais dos Tapuias") como os tapuia comiam até ficarem fartos "carne crua e mel"...

Após a comida, tinha início a "dança tapuia". Mas como era essa dança? Estêvão Pinto, em "Índios do Nordeste", afirma que os Tupinambá da costa brasileira, além de suas danças tradicionais, tinham uma tapuia porasé - dança tapuia que haviam aprendido com grupos indígenas do sertão. Mas no caso específico da comunidade Catu dos Eleutérios, nenhuma das senhoras foi capaz de fornecer detalhes sobre essa "dança".

Os três irmãos que fundaram a comunidade do Catu eram índios Potiguara vindos de Pernambuco (segundo afirmam moradores da comunidade). Porém, no litoral norte-rio-grandense misturaram-se, nos aldeamentos liderados pela igreja católica, indígenas do litoral e do interior, nativos Tupi e Tapuia. O próprio Saco do Uruá - comunidade que deu origem ao Povoado do Uruá, futuramente Vila da Penha e Município de Canguaretama - era formado por índios fugidos dos aldeamentos e alguns negros que buscavam alternativas à escravidão nos engenhos. A tapuia porasé dos já falecidos caboclos do Catu jamais poderá ser descrita, uma vez esquecida por aqueles que tiveram a chance de assisti-la e dela participar.

Perguntei se era parecida com o atual Toré que dançamos na comunidade. A resposta foi: "Não. Aqueles trabalhos bonitos, assim, ninguém de hoje faz mais não". Ao menos uma das senhoras agradara-se da dança tapuia. Perguntei sobre as músicas: "Vocês se lembram de algumas das músicas que cantavam no ritual?". Após fazer o sinal da cruz e dizer que não gosta de lembrar, dona Silvina cantou: "Eu estava no meio da mata, no toco, embolando mé... Quando olhei tava cercado por Cecinha Canindé...". As músicas, pelo menos, continuam as mesmas, segundo minhas amigas. Hoje, cantamos: "Eu estava no meio da mata, no toco tirando mé... Quando olhei tava cercado do Tapuia Canindé"...

Rei Canindé, um dos maiores protagonistas da Guerra dos Bárbaros (conflito ocorrido entre 1650-1720, no qual diversos grupos indígenas do Nordeste do Brasil voltaram-se contra os invasores portugueses), chefe de quase dez mil índios, para sempre estará na memória dos caboclos do Nordeste Brasileiro, sendo cantado nos Torés, nos catimbós e na Umbanda.

Dona Silvina cantou outra das antigas linhas: "Que tanta chuva na boca da Barra. De hora em hora passa um avião. Esse Xangô que estou batendo agora, sinto alegria no meu coração. A borboleta bateu asa e foi embora. Chegou a hora eu não posso demorar. Só tenho pena da minha xangozeira e de cada um que procurar parêia igual". Essa, cantamos juntos. Eu a havia aprendido com a mestra Maria Fernandes há cerca de três anos, época em que elaborava minha monografia de especialização em Ciências da Religião, sobre a Jurema Sagrada de Canguaretama.

Da conversa concluí que, ao menos nas memórias daquelas quatro veneráveis caboclas, na primeira metade do século XX membros do Catu ainda realizavam uma "dança tapuia", na qual estavam vivos elementos de antigas práticas autóctones, mesmo que ladeados por termos e caracteres de origem afro. Mais à frente, direi algumas palavras sobre o que essas senhoras me informaram a respeito das mesas de jurema de décadas atrás.

Um comentário:

  1. Olá, você menciona em seu texto "Francisco Eleutério, parente dos três irmãos indígenas da família Eleutério". Saberia me dizer o nome dos três irmão indígenas?

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