Total de visualizações de página

domingo, 28 de agosto de 2011

HOMENAGEM A FELIPE CAMARÃO

No dia 24 de agosto (dia em que faleceu o Índio Poty, em 1648), na capital do Rio Grande do Norte, ocorreram eventos em homenagem ao grande guerreiro Felipe Camarão.

Na rua Felipe Camarão - Cidade Alta -, por volta das 9:30 da manhã, o Centro de Estudos Indígenas do RN e os alunos do grupo de Toré e Cultura Indígena da Escola Irmã Arcângela (bairro do Igapó, pátria do Índio Poty) iniciaram as atividades realizando um cortejo em homenagem ao grande herói Potiguara.


Após o cortejo, com a chegada de membros da comunidade indígena Mendonça do Amarelão (João Câmara / RN), em frente às lojas Poty Livros, foi a vez de apresentarmos nossa dança sagrada - o Toré - reunindo Igapó e Amarelão.

Iniciamos e encerramos o Toré com uma linha de Catimbó coletada por Mário de Andrade, na décade de 1920, nós catimbós da Cidade do Natal, que é mais ou menos essa:


Dão Felipe de Arcoverde Camarão,

Camarão Pitú-Assú!

Camarão é vingador! ... Camarão é vencedor! ... Camarão sanguinador!


Parentes do Índio Poty, como Clara Camarão e Eudenice Camarão; membros da FUNAI e da Fundação José Augusto; políticos e imprensa local assistiram e discuraram no evento. Após o Toré, foram entregues cerca de 2.000 assinaturas a um representante da deputada Fátima Bezerra, através das quais pedimos que o nome de Felipe Camarão seja inscrito no Livro dos Heróis Nacionais. Aproveitando a ocasião, a Poty Livros presenteou a comunidade Mendonça do Amarelão com livros sobre diversos assuntos.


No final da tarde, a partir das 17:30, novo encontro ocorreu no auditório da Poty Livros do Praia Shopping, desta estando presente um representante da Brigada Felipe Camarão. Várias atividades foram articuladas, dentre as quais podem ser citadas a publicação de um livro com textos antigos sobre Felipe Camarão e a construção de uma estátua do guerreiro potiguara no bairro do Igapó.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ATO CONTRA BELO MONTE




Hoje, 19/08, realizamos nosso Ato Contra Belo Monte. O primeiro de outros que provavelmente ocorrerão. Ainda são poucos os indivíduos que se preocupam com o meio ambiente e com os povos indígenas, na capital do Rio Grande do Norte. Porém, acreditamos que essa situação irá mudar. A então chamada "esquerda" (seja evolucionista ou revolucionária), em sua maioria, preocupa-se mais com eleições, campanhas políticas tradicionais e revolução bolchevista anacrônica do que com questões de maior urgência, das quais a construção de Belo Monte é um exemplo. Justamente por isso, precisamos transcender a política tradicional e ultrapassada e dar origem a novas formas de manifestação e organização, articular insurreições culturais, zonas autônomas e espaços de resistência descentralizados em sintonia com os contextos global e local.


Nosso ato contou com pouca gente. Entretanto, mais vale qualidade do que quantidade. Nos encontramos no Calçadão da João Pessoa por volta das 14:00 horas. Iniciamos uma panfletegem embalada por músicas indígenas e emboladas de coco. Cerca de uma hora depois, descemos para o Baldo, para nos unirmos a uma manifestação do movimento #FORAMICARLA articulada pelo Conlutas. Enquanto os populares chegavam, realizamos uma rápida visita ao Squat Taboca - ocupação anarquista recente mas muito produtiva, no centro da cidade. A passeata teve início por volta das 16:00 horas. Além de nosso grupo, militantes de outros movimentos e partidos mostraram-se solidários à luta contra Belo Monte - o que nos faz acreditar que a solidariedade aos povos indígenas que habitam o Xingu e ao Planeta tende a crescer.

Amanhã - dia marcado para as manifestações mundiais - será realizada panfletagem contra Belo Monte no município de Nova Cruz / RN.


A luta segue! #DIGANÃOABELOMONTE !

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

ENCONTRO DOS ESTUDANTES DA UVA COM OS INDÍGENAS DO KATU DOS ELEUTÉRIOS

Sábado (13/08), alunos do Curso de Pedagogia da Universidade Vale do Acaraú (UVA), do município de Nova Cruz, visitaram, orientados pelo professor Rômulo Angélico, a comunidade indígena Katu dos Eleutérios (Canguaretama / Goianinha / RN).

Realizamos três atividades durante nossa aula de campo na comunidade:

1° Conversamos com os professores Valda (Pedagoga graduada na UVA e pós-graduada em Psicopedagogia pela FAL) e Vando (Pedagogo formado pela UVA). Valda é coordenadora da Escola Municipal João Lino da Silva - a primeira escola indígena do Rio Grande do Norte. Nosso bate-papo foi muito rico: tratamos da história da comunidade, espiritualidade indígena e pedagogia diferenciada aplicada na escola.


2° Após a conferência realizada na escola indígena, realizamos uma caminhada ecológica no Katu. Tivemos, então, a oportunidade de observar a agricultura local; conversar com o primeiro homem a assumir-se indígena no Rio Grande do Norte (após quase duzentos anos de silêncio) - o Moribuxaba Nascimento; e de caminhar por uma pequena e bela trilha que nos remeteu a aspectos da mata original.


3° Após o almoço, realizamos uma oficina intitulada: "Toré: dança, canto e espiritualidade indígena" - ministrada pelo professor Rômulo Angélico.


Lembremos que a UVA é, até então, a única Universidade do Rio Grande do Norte a inserir no Curriculum do Curso de Pedagogia - Licenciatura Plena - a disciplina "Educação Indígena". O trabalho dessa instituição é, portanto, pioneiro em nosso Estado.

ATIVIDADES DO MOVIMENTO INDÍGENA EM NATAL

Por estar viajando a trabalho pelo interior do RN, estou antecipando a manifestação contra Belo Monte, em Natal / RN, para o dia 19/08. Portanto...


- DIA 19/08, MANIFESTAÇÃO MUNDIAL CONTRA A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE -


CALÇADÃO DA JOÃO PESSOA ÀS 14:00 HORAS (CIDADE ALTA)





DIGA "NÃO À BELO MONTE!"


O MUNDO NÃO PODE PERMITIR QUE CRIME DE TAMANHA PROPORÇÃO SEJA COMETIDO!



O XINGU NÃO SERÁ DESTRUÍDO EM BENEFÍCIO DE UM PEQUENO GRUPO EMPRESARIAL CAPITALISTA INTERNACIONAL (ALIADO AO GOVERNO BRASILEIRO), QUE PRETENDE ENRIQUECER ÀS CUSTAS DO SANGUE DE SERES HUMANOS E DA DEVASTAÇÃO DO MEIO AMBIENTE.



A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE NO XINGU IRÁ ALTERAR O CURSO E A TEMPERATURA DO RIO - O QUE FARA COM QUE MILHARES DE PEIXES APODREÇAM; INUNDARÁ SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E CENTENAS DE MILHARES DE HECTARES DE ÁREAS VERDES, COM SUA RESPECTIVA FAUNA E FLORA.


OBRIGARÁ MAIS DE 40.000 ÍNDIOS E CABOCLOS DE DIVERSAS ETNIAS, QUE HÁ SÉCULOS VIVEM NO XINGU E SOBREVIVEM DA CAÇA, DA PESCA E DA COLETA, A ABANDONAREM SEUS LARES TRADICIONAIS (SEM FALAR NOS INDÍGENAS QUE POSSIVELMENTE SERÃO EXTERMINADOS CLANDESTINAMENTE, POR NÃO CONCORDAREM EM ABANDONAR SUAS CASAS).


MAIS DE 35 BILHÕES DE REAIS DOS COFRES PÚBLICOS SERÃO INVESTIDOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA USINA QUE SÓ FICARÁ PRONTA EM 2019 E QUE NÃO PRODUZIRÁ SEQUER 10% DA ENERGIA QUE O BRASIL PRECISA. MUITO MAIS ECONÔMICO, PRODUTIVO E ECOLÓGICO SERIA INVESTIR EM ENERGIA EÓLICA - MAS ISSO NÃO INTERESSA AO GOVERNO BRASILEIRO MUITO MENOS AOS MEGA EMPRESÁRIOS.


POR ISSO, NÓS, ÍNDIOS, CABOCLOS, AFRODESCENTES E DEMAIS BRASILEIROS CONSCIENTES, DENUNCIAMOS ESSE CRIME CONTRA OS SERES HUMANOS - ESSA MONSTRUOSA FALTA DE RESPEITO COM OS POVOS TRADICIONAIS E CONTRA O PLANETA EM QUE VIVEMOS - E EXIGIMOS QUE BELO MONTE, JUNTAMENTE COM TODOS OS ARTIFÍCIOS DE DESTRUIÇÃO AMBIENTAL E ETNOCÍDIOS SEJAM BANIDOS DA FACE DA TERRA.



- DIA 24/08: HOMENAGEM AO ÍNDIO POTI (FELIPE CAMARÃO) -


10 HORAS, NA RUA FELIPE CAMARÃO, EM FRENTE ÀS LOJAS DA POTY LIVROS (CIDADE ALTA). HAVERÁ PANFLETAGEM, COLETA DE ASSINATURAS PARA A CAMPANHA QUE ELEVARÁ O ÍNDIO FELIPE CAMARÃO A HERÓI NACIONAL, DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS E APRESENTAÇÃO DO TORÉ.



(ORGANIZAÇÃO: GRUPO DE ESTUDOS INDÍGENAS DO IGAPÓ E CENTRO DE ESTUDOS INDÍGENAS DO RIO GRANDE DO NORTE)



CONTAMOS COM TUA PRESENÇA!

domingo, 14 de agosto de 2011

ÍNDIOS DO SAGI (BAÍA FORMOSA / LITORAL SUL DO RIO GRANDE DO NORTE)

Caríssimos leitores, ontem, pela primeira vez, visitei a comunidade indígena do Sagi, localizada no litoral sul do Rio Grande do norte, no município de Baía Formosa. O lugar é realmente bonito, limpo e agradável. Embora minha visita tenha sido muito rápida, pude conversar com alguns indígenas da comunidade, agendando visitas futuras.



Os índios do Rio Grande do Norte, depois de tantos anos "ocultados" pela "historiografia tradicional", reapareceram. Alguns decidiram quebrar o silêncio violentamente imposto pela colonização. Lembro que em 2005 li textos nos quais se dizia que no Piauí e no Rio Grande do Norte não existiam mais índios. Hoje, porém, a realidade prova o contrário.


Em breve terei maiores informações sobre a comunidade indígena do Sagi. Abraços para todos os parentes de lá! Viva os índios do Nordeste brasileiro! DIGA NÃO A BELO MONTE!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

AS RAÍZES INDÍGENAS DO KA'ATIMBÓ-YUREMA

Em meados de 2006 iniciei minhas pesquisas sobre os cultos comumente chamados "afro-brasileiros". Percorrendo parte do litoral norte-rio-grandense - especialmente os municípios de Canguaretama, Natal e Ceará Mirim, tanto em suas áreas rurais quanto urbanas - pude constatar que, por trás do termo "afro-brasileiro", encontra-se, em realidade, uma série de manifestações espirituais híbridas, "sincréticas", nas quais, ao menos no Rio Grande do Norte, a presença indígena se faz marcante.

O que a Academia classifica "afro-brasileiro", o senso comum chama de: macumba, umbanda, catimbó, jurema, candomblé e Xangô. Para quem vê de fora, realmente, todos esses termos parecem significar uma mesma coisa, porém, há diferenças.


CANDOMBLÉ é uma religião de origem africana, trazida ao Brasil pelos escravos. Em linhas gerais, o Candomblé cultua os Orixás, sendo cada Orixá uma personificação de determinada Força da Natureza.


A UMBANDA é uma religião híbrida, nascida no sudeste brasileiro, na década de 1920. Na Umbanda encontramos elementos de credos cristião, judaico e islâmico, entrelaçados a caracteres afro-indígenas muito fortes e kardecismo (como disse, uma religião "híbrida"). Do sudeste a Umbanda expandiu-se pelo Brasil, absorvendo ou incorporando outros cultos populares como a Jurema e o Terecó.


O CATIMBÓ-JUREMA é um culto ancestral de matriz indígena, característico do nordeste brasileiro.


"Ka'atimbó", em língua de índio, significa "fumaça de mato" (uma referência aos métodos de cura e transmissão de forças utilizados por pajés e karaíbas - osmoterapia indígena na qual o paciente é defumado por vapor de determinadas plantas ou sobre o qual sopra-se fumaça da erva petym).


"Yurema" é uma das plantas sagradas dos índios do nordeste. Com a Jurema prepara-se uma bebida especial, venerada, também chamada "jurema", com a qual acredita-se fortalecer o corpo e a alma, além de possibilitar experiências enteógenas. Veremos que há uma polissemia em torno das palavras "catimbó" e "Jurema".


Os índios Tapuy'ya (Kariri e Tarairiu, por exemplo), em suas práticas espirituais, invocavam entidades, profetizavam, eram "incorporados" por espíritos de outros Tapuy'ya e - fazendo uso da Jurema - entravam em contato com os ancestrais e seus mundos sagrados.


A partir do século XVI, a presença européia e africana no litoral do nordeste brasileiro e o subsequente processo de colonização influiram no antigo cerimonial indígena, acrescentando-lhe elementos distintos. Atualmente, após séculos de colonização e perseguição cristã, em alguns terreiros encontramos uma Jurema permeada de elementos africanos; em outros, um culto com muitos caracteres católicos e kardecistas; e em outras casas de culto, uma Jurema ainda muito Tapuy'ya.


Canguaretama (município localizado no litoral sul do Rio Grande do Norte) é um exemplo de região na qual a Jurema permanece fortemente marcada por elementos indígenas. Entre 2009 e 2010, percorri o citado município a procura de centros e terreiros que lidassem com Tradições afro-ameríndias e minha surpresa foi grande ao constatar que não havia casa ativa que trabalhasse com Candomblé na região. Centro kardecista há um, cujo presidente é o senhor Edgar Aranha. Quanto às casas de Jurema, além das 27 cadastradas na Federação de Umbanda e Candomblé do Rio Grande do Norte, há tantas outras "irregulares" trabalhando na linha da Jurema, sejam ou não umbandistas.


Em linhas gerais, podemos dizer que em Canguaretama há quatro tipos de culto à Jurema: uma Jurema de mesa, na qual o Mestre ou Mestra que dirige a sessão é o "paié" conhecedor dos modos de invocar e despedir os Mestres espirituais, além de conhecer rezas para combater males específicos e o segredo medicinal de várias plantas. Sentado atrás de uma mesa muitas vezes bastante paramentada (além de vela e copo com água, podemos encontrar terços, imagens de santos católicos, rosas, livros, etc.), o Mestre canta suas toadas invocando índios, caboclos e espíritos encantados protetores das florestas e dos animais.


A Gira de Jurema - na Umbanda - é uma dança circular, marcada por cânticos de invocação aos Mestres e Mestras, caboclos e encantados, ritimada por tambores, triângulo e às vezes maracás. Na gira, os neófitos vão desenvolvendo sua mediunidade e, caso seja necessário, um Mestre pode manifestar-se para curar ou orientar algum devoto.


A Jurema de Chão em Canguaretama é chamada "Catimbó" e está relacionada a trabalhos mais pesados de desmancha de feitiços e vingança. Sozinho, nas matas, ou em seu terreiro - com ou sem presença de devotos - o Mestre abre sua mesa no chão antes de fazer seu Trabalho.


O Toré é uma outra forma de culto a Jurema, própria de comunidades indígenas ou de ambientes em que a presença cabocla é muito forte. Na aldeia do Katu - localizada entre os municípios de Canguaretama e Goianinha - os caboclos, em contato com os índios de Baía da Traição, reaprenderam o Toré. Os relatos mais antigos que encontrei na comunidade citam a existência, na primeira metade do século XX, de um "ritual Tapuy'ya", no qual os médiuns ficavam nus ou seminus, corriam pelas matas, comiam carne crua com mel e verduras e, após isso, realizavam a "dança Tapuy'ya". Hoje, entretanto, como ocorre no Katu, o Toré é uma dança circular na qual os caboclos cantam para os Mestres, Mestras e Encantados, sem a ocorrência de transe espiritual. Ninguém "recebe" espíritos - diferente dos "Torés de Caboclo" que ocorrem nos terreiros de Umbanda.


O que há de elementos indígenas no Catimbó-Jurema de Canguaretama? Podemos citar, por exemplo:


O transe espiritual e a "incorporação de espíritos" - que não é herança africana, como bem deixam claro as pesquisas de Olavo de Medeiros Filho sobre a "religião dos Tapuia". Os Mestres e Mestras "recebem" espíritos de índios guerreiros, pajés, caboclos e encantados. Dentre esses espiritos, encontramos a Florzinha da Mata, a mestra Andilina Caipora, Ka'axangá, o Pássaro Azulão, dentre outras divindades indígenas.


Geralmente chefes indígenas - como o Rei Kanindé, filho de Janduí e grade líder da Guerra dos Bárbaros, o Rei Tupinambá e Manoel de Almeida (irmão de Felipe Camarão), por exemplo - são citados constantemente nas sessões de vários terreiros. Referências a etnias indígenas também estão presentes nos cânticos: Tupinambá, Guarany, Tapuy'ya de Kanindé, etc.


O uso ritualístico da bebida Jurema. Em algumas casas, porém, "Jurema" tornou-se algo bastante subjetivo - um Lugar, uma Força ou Ciência citada pelos Mestres, não mais uma bebida sagrada ingerida durante as sessões.


A crença nas aldeias e cidades da Jurema, lugares sagrados, "mundos espirituais", de onde vêm os espíritos curandeiros.


O uso ritualístico da erva petym (na língua Tupi), Badzé (no dialeto Brobo) - o tabaco - e de uma série de outas plantas sagradas da flora local, com as quais os Mestres preparam suas "fumaças", defumadores, remédios e banhos especiais.


A cura através da sucção. Estando uma pessoa com alguma parte do corpo enferma, após soprar fumaça de petym sobre o membro doente, o Mestre trata de retirar o mal chupando a parte afetada. Se a causa da doença for feitiçaria, o "trabalho" é desfeito. Entre uma chupada e outra o Mestre cospe fora o feitiço, depositando em um copo para depois jogar fora supostas substâncias utilizadas no malefício: pedaços de ossos, pólvora, insetos, etc.


Do culto aos Orixás, em Canguaretama há casas que não absorveram quase nada. Há, porém, uma releitura de elementos afro: Orixás como Oxóssi e Iemanjá, por exemplo, manifestam-se como Mestres espirituais nas sessões de Jurema. Iemanjá, uma "mestra sereia" e Oxóssi, um caboclo da mata. Mas em outros terreiros, os Orixás são bastante citados. No "Centro Espírita de Umbanda Caboclo Zé Pelintra e Caboclo Panema", por exemplo, havia trabalhos de Mesa, Toré de Caboclo e trabalhos na linha do Candomblé - cada um em um dia da semana; já no encontro dos juremeiros de Canguaretama, ocorrido no Terreiro Mestre Malunguinho, em 4 de abril de 2010, antes de cantar para Caboclos e Mestres, cantou-se para Exu e para vários Orixás. Existem Mestres, não esqueçamos, que não encontram seriedade nas giras, considerando-as lugares perigosos onde todo tipo de espírito pode "baixar", inclusive entidades viciadas e perversas. Para esses Mestres, o trabalho sério de cura só é realizado nas Mesas de Jurema.


A influência católica é muito forte. As sessões de mesa, por exemplo, quase sempre são iniciadas por preces ou cânticos de teor cristão. Nas casas há imagens de santos e santas católicas; e todos os Mestres espirituais, antes de cantarem suas toadas através das quais se apresentam, dizem: "Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!", sendo respondidos pela assistência: "Para sempre seja louvado!".


Interessante lembrar que nos séculos XVI e XVII, no nordeste brasileiro, tanto portugueses católicos quanto holandeses protestantes, durante as guerras, assistiam silenciosos às invocações indígenas. Sob orientação de espiritos, índios Tapuy'ya e Potiguara se preparavam para os combates, fortalecendo as campanhas e firmando interesses dos invasores europeus. Porém, em outras ocasiões, cultos como a Jurema foram considerados "feitiçaria", sendo assim perseguidos: desde o século XVI, ocas consagradas às divindades indígenas são queimadas e os espíritos protetores são tachados de demônios; pajés foram perseguidos, presos e diabolizados - o que me faz acreditar que os cristãos de hoje, no critério "intolerância", parecem continuar idênticos aos colonizadores dos séculos XVI e XVII.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

GRUPO DE ESTUDOS INDÍGENAS DO IGAPÓ

O Grupo de Estudos Indígenas do Igapó continua em atividade. Ontem (05/08) realizamos ensaio de Toré, para apresentações que ocorrerão este mês (mais à frente divulgarei as datas).

Antes do Toré, iniciamos as aulas de língua Guarany. Provavelmente às terças, 16:00 horas, esteremos nos reunindo na Escola Municipal Irmã Arcângela para estudar Guarany e dançar nosso fraterno Toré de Caboclo.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

TUPI: NOSSA VERDADEIRA LÍNGUA (PARTE II)

Nós, que vivemos no litoral brasileiro, deveríamos (re)aprender a língua matriz deste lugar - a língua mais falada na costa do Brasil, que resistiu bravamente às investidas européias até meados do século XVIII e que hoje, embora seja considerada equivocadamente "língua morta", ainda possui algumas centenas de milhares de estudantes e falantes: a língua Tupi.

Neste blog já foram dadas algumas dicas - bibliografias - para pessoas interessadas em estudar o Tupi Antigo. Agora, deixo breves orientações para quem deseje aprofundar um pouco mais seus estudos sobre nossa Língua Ancestral.

- O filme Hans Staden (lançado em 2000 e distribuido pela Riofilme; com direção, roteiro e produção de Luiz Alberto Pereira), trata da história do Alemão Hans Staden, que naufragou no litoral brasileiro, tendo sido aprisionado por índios Tupinambá em 1554, escapando por pouco de um ritual antropofágico. O filme foi todo gravado na língua Tupi, com alguns trechos curtos em português, alemão e francês. Em minha opinião, Hans Staden derrubou Apocalypto, de Mel Gibson - filme gravado na língua Maia, mas com grave erro historiográfico e teor sensacionalista. Hans Staden é um referencial historiográfico, visual e sonoro que considero muito bom para os interessados na Língua Tupi e nas culturas indígenas.

- O CD de Marlui Miranda Missa Indígena, resgata elementos das missas do século XVI escritas principalmente em Tupi Antigo. Mesmo sendo contrário às missões cristãs, bahá'ís, etc. que invadem as aldeias cometendo etnocídios, sou obrigado a admitir que o citado CD é um referencial sonoro para quem pretende ir se familiarizando com as pronúncias do Tupi Antigo.


- O CD da banda Sinhô Preto Velho Kaumondá possui todas as músicas na Língua Tupi. A banda toca um misto de rock, funk, soul e samba muito bem trabalhado.

Todo esse material está disponível para "download" na internet.

Abraços do Tapuy'ya! Que as Rosas Floresçam!